terça-feira, 23 de dezembro de 2008

UMA PARADA NATALINA

Resolvi dar uma parada nas postagens dos textos do meu livro sobre a tragédia do modelo "uma igreja com propósitos" a fim de pensar numa realidade mais amena: o tempo festivo de natal.

Olha, no domingo passado preguei uma mensagem sobre o ideal de simplicidade que precisa se processar em tempos natalinos. Critiquei abertamente o consumismo e a pressão de se gastar o que não se tem, comprando coisas de que não precisamos para impressionar pessoas que não queremos conhecer! Tudo isso vem como propaganda enganosa acerca do Natal.

O Natal é oportunidade de lembrarmos de que Deus poderia perfeitamente ter abalado o mundo com uma bomba, mas optou em impressionar e bagunçar a vida de muita gente com um bebê. Isso tudo porque, de acordo com a profecia de Ageu 2.6,7, todas as nações deviam ser abaladas quando o "desejado das nações" iria nascer.

E, todas as coisas precisavam ser convergidas, para que Jesus nascesse na "cidade de Davi", mas não na cidade em que ele havia se sagrado rei, mas, sim na cidadela, a menor de todas as cidades de Judá, Miquéis 5.2, onde Davi havia nascido em pobreza, para ser um pastor de ovelhas.

Gosto de pensar em Natal como o tempo do cumprimento de profecias do Antigo Testamento: lembro-me de várias, posso citar algumas apenas: Genesis 3.15 (do homem nascido da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente, Satanás), Deuteronômio 15.18 (do profeta que haveria de vir após Moisés), Isaias 7.14 e 9.6 (o menino que haveria de receber o governo do mundo em seus ombros) e a minha predileta: Daniel 2.34,35 (a grande pedra que seria precipitada montanha abaixo, sem o auxilio de mãos, e destruiria a estatua pelos pés, que na visão representava o império romano).

Jesus nasceu em um contexto de recenseamento, e me parece um contrasenso da divina Providência: "em vez de ter reis pagando tributos a Ele, quando veio ao mundo, Ele mesmo se fez um pagador de tributos".

Leon Morris em seu simpático comentário diz que "o nascimento do Filho de Deus é descrito com muita simplicidade. Maria enfaixou-o com longas faixas que seriam passadas muitas vezes ao redor das crianças. Que a própria Maria enfaixou a criança indica um nascimento na solidão. Que Ele foi deitado numa manjedoura tem sido entendido no sentido de Jesus ter nascido num estábulo".

Por fim, percebo nessa parada algumas sérias reflexões:

(a) Celebremos um Natal marcado pela solidariedade.

Incomoda-me saber que até a hora de adormecermos nesta noite, mais de dez mil indivíduos terão morrido de fome, mais de quatrocentos por hora. Muitos outros vivem à beira da extinção, estão subnutridos, desorientados e desesperados (R. Foster). O drama dos que passam fome, precisa nos levar a um Natal menos dispendioso mais "mão aberta".

(b) Celebremos um Natal marcado pela espiritualidade.

Alguém já disse que o lugar mais falso de toda a terra é a mesa de Natal de muitas famílias. Conversa-se sobre todos os assuntos com relativa superficialidade. Que tal neste ano separar um tempo na mesa para uma conversa franca sobre os últimos incidentes "cara a cara" e propiciar um espaço para o Espírito Santo de Deus fazer uma verdadeira limpeza de corações e almas? Sei que é difícil, mas penso que na noite natalina, é muito bom estabelecermos em nossas casas, tendas para abrigar um coração sensível ao mover de Deus no nosso meio.

(c) Celebremos um Natal marcado pela Palavra de Deus.

Termino esse artigo, com uma experiência compartilhada em um boletim de uma igreja da cidade do Rio de Janeiro que tive acesso na semana passada.

Ronaldo Lidório, missionário presbiteriano entre o povo Komkomba do Gana, no centro da África conta de uma mulher que se converteu em uma aldeia distante de onde morava o pastor. Ela não sabia ler e por isso ia até a aldeia do missionário e ali ouvia e decorava capítulos inteiros da Bíblia. Depois voltava e os repetia aos seus familiares, amigos e irmãos em Cristo. Certa feita, depois de dias decorando a Palavra, ela se preparou para voltar à sua casa. Andou mais de 4 horas pelas trilhas no mato quando percebeu que esquecera parte dos textos decorados. Voltou a trilha inteira e chegou à casa do missionário já ao anoitecer. O pastor então quis saber por que ela voltara a tanto custo. Afinal, só esquecera uns poucos versos no meio de vários capítulos. Ela respondeu: “A Palavra de Deus é importante demais para perder qualquer parte dela”.

Neste Natal façamos essa parada estratégica, e ousemos fazermos as seguintes perguntas: Cremos na condução da história da humanidade por um Deus providente, que pensa em tudo, e fez de Jesus, o menino que abalou as estruturas de nosso tempo? Temos aproveitado o clima natalino para sermos mais sensíveis em relação aos que sofrem dos desmandos desse "mundo cão"? Estamos dispostos de, ao invés de fazermos de nossa ceia familiar um espaço de hipocrisias para um tempo de verdade "olho a olho"? Queremos de fato consumirmos menos coisas e comermos mais da Palavra de Deus, que é alimento para a vida eterna?

Um feliz e pensativo Natal, sem farisaismos e mentiras, com mais verdade, amor e fidelidade ao Senhor nosso Deus!

Um comentário:

Renato Vargens disse...

Como sempre um texto inteligente, reflexivo e abençoador! parabéns!

Renato Vargens